Excerto O Homem de Betão

Cena escolhida

"A pergunta que ninguém faz" — Capítulo 1.


Chamava-se Íris. Trazia um vestido de domingo que alguém lhe pusera para a televisão e uma seriedade de funcionária, como se lhe tivessem confiado uma missão importante e ela não fosse falhar. Olhou para o cartão que lhe tinham dado, decidiu que não precisava dele, pousou-o no colo, e disparou:

— O senhor trabalha muito?

— Trabalho — disse David, aliviado por uma pergunta com resposta.

— Muito, muito?

— Muito, muito.

A menina considerou aquilo com o cenho franzido, a pesar a informação.

— E é por quem?

David abriu a boca. Pela empresa, ia dizer, e ouviu, antes de o dizer, como aquilo soava. Pelos meus, ia dizer a seguir, e a palavra ficou-lhe pendurada, porque a menina de dez anos estava a olhá-lo com uns olhos que não sabiam ainda que há perguntas a que os adultos não respondem, e esperava, de boa-fé, com toda a paciência do mundo, uma coisa verdadeira.

— Pelos meus filhos — disse por fim. — Para eles terem o que eu não tive.

— E o que é que o senhor não teve? — perguntou Íris. — Se não é malcriadez perguntar.

David quase sorriu. Ia dizer uma coisa e disse outra, e a outra apanhou-o a ele primeiro do que a ela.

— Um pai que estivesse — disse. E ouviu-se dizer aquilo, à frente de uma câmara, e ficou tão surpreendido como se a voz tivesse saído de outra pessoa. — Tínhamos tudo. Dinheiro, casa grande, tudo. Só não tínhamos… — parou, à procura da palavra segura, e não a encontrou a tempo — …ele. Estava sempre no escritório. A tratar do que era importante.

Íris pensou nisto com o cuidado de quem monta um puzzle difícil.

— E os seus filhos têm-no a si? — perguntou. — Ou está sempre no escritório a tratar do que é importante?

Fez-se um silêncio pequeno na sala grande. Ao fundo, David viu a Sara pousar o bloco no colo, muito devagar, como quem não quer assustar um pássaro que pousou perto.

— Isso — disse David, e a voz saiu-lhe um grau mais baixa do que queria — é uma excelente pergunta.

Que era, como toda a gente naquela sala percebeu, a maneira dos homens como ele de não responder a nenhuma.

Mas a menina não tinha acabado. Tinha ainda a pergunta que trazia mesmo a sério desde que lhe tinham dito com quem ia falar.

— O que é que o faz sentir-se amado?

E David Mercer, que tinha respostas para acionistas, para ministros, para juízes e para jornalistas de meio mundo, que dali a nada ia falar de uma operação de nove mil milhões sem consultar uma folha, ficou calado à frente de uma criança de dez anos, porque a pergunta entrou por um sítio que não tinha porta e ele não sabia o que é que lá havia dentro.


Ficou calado à frente de uma criança de dez anos, porque a pergunta entrou por um sítio que não tinha porta e ele não sabia o que é que lá havia dentro. — O Homem de Betão