Excerto A Mulher de Vermelho
Cena escolhida
"A pergunta que não vinha no cartão" — Capítulo 1.
— E o que é que a faz sentir-se corajosa?
Maria olhou para ele. Esta, ao contrário das outras, tinha resposta pronta — não porque a tivesse ensaiado, mas porque era a única coisa em que acreditava sem reservas, o resíduo de tudo o resto.
— Ter medo e ir na mesma — disse. — A coragem não é não ter medo, Óscar. Isso não é coragem, é distração. É ter muito medo de uma coisa e fazê-la à mesma, porque é a coisa certa.
O rapaz guardou aquilo. Via-se-lhe na cara que ia guardar aquilo.
— É feliz? — perguntou depois, e não era do cartão, era mesmo dele, feita com a naturalidade com que as crianças fazem a pergunta que os adultos passam a vida a rodear sem tocar.
Maria abriu a boca e, pela primeira vez naquela manhã, não lhe saiu resposta nenhuma — nem a verdadeira, nem a de encomenda. Ficou a olhar para o menino, e o menino ficou a olhar para ela, à espera, com aquela paciência que as crianças têm de nascença e que os entrevistadores treinam anos para imitar. "Tenho uma vida muito boa", disse por fim. O Óscar franziu o nariz, insatisfeito. Mas não insistiu; teve pena dela.
Depois, porque o cartão ainda tinha uma linha e ele era um menino responsável, olhou para baixo, leu, e a última voltou a ser dele e do cartão ao mesmo tempo, e apanhou-a onde ela não tinha defesa nenhuma montada:
— Aquilo de ser advogada. Conseguiu?
Fez-se um silêncio de sala cheia. Maria olhou para o rapaz de dez anos que lhe perguntava, sem saber o que perguntava, se a vida que tinha era a vida que quisera. Podia ter dito que sim — que se tornara muito mais do que advogada, que dirigia uma empresa que ele veria da autoestrada. Tudo verdade. Tudo à mão. Em vez disso, ouviu-se dizer, muito baixo, a coisa que não estava no plano de nenhum dos dois:
— Ainda não sei.
E, do outro lado da sala, viu Sara Lindqvist parar de tomar notas.
A coragem não é não ter medo. É ter muito medo de uma coisa e fazê-la à mesma, porque é a coisa certa. — A Mulher de Vermelho
